Utilize este identificador para referenciar este registo: http://hdl.handle.net/10400.6/1577
Título: A aula de filosofia como laboratório conceptual
Autor: Raposo, Ana Rita Gonçalves
Orientador: Domingues, José António Duarte
Palavras-chave: Filosofia - Ensino - Aspectos conceptuais
Filosofia - Conceito - Ensino
Data de Defesa: Jun-2010
Editora: Universidade da Beira Interior
Resumo: A partir da análise da experiência que tenho do ensino da filosofia, vou constatando que os alunos chegam imersos com preconceitos relativamente à filosofia, o que é demonstrativo da sua incerteza e insegurança por terem que começar a lidar com o "desconhecido", principalmente no 10º ano de escolaridade. Torna-se, assim, necessário motivá-los para os trabalhos do pensar, incentivá-los, estimulá-los. Várias são as formas de o fazer: leitura e análise de textos filosóficos, de textos não filosóficos, debates/discussões a partir de problemáticas que sejam do seu interesse e lhes digam directamente respeito, redacção de textos argumentativos, utilização de meios audiovisuais, por exemplo, análise de um filme ou excertos de vídeos, conectando-os com a "matéria", e outras mais. Contudo, e não desvalorizando cada uma destas formas, proponho outra que, de certo modo, se interliga com aquelas. Esta proposta tem a intenção de despoletar o apelo nos alunos para a actividade filosófica, tornando-a dinâmica, embora rigorosa, em que todos participam. O trabalho de investigação que aqui desenvolvo procura, deste modo, argumentar o papel que a actividade filosófica poderá assumir num contexto de aula, transformando-se esta num laboratório, uma vez que, numa aula de Filosofia, concebida como laboratório, realiza-se uma investigação em que se compele os alunos a assumirem uma atitude de criação e descoberta, possibilitadora da interpretação da experiência. Empreende-se uma luta contra a passividade, contra a apropriação imitativa e declamatória dos pensamentos de outrem. Considera-se, deste modo, que a aula pode assumir-se como um local de investigação, em que se trabalhe com problemas determinados, convertendo-se num espaço de realização de experiências de colocação de problemas, de criação de conceitos a partir dos problemas encontrados, na medida em que a aula deve acontecer não como mera transmissão hermética de conteúdos estrangeiros mas, antes, como condição de possibilidade de compreensão da experiência. Uma aula como laboratório possibilitará a insinuação do filosófico, a interrogatividade da filosofia. Destaca se, neste sentido, a importância do filosofar como experiência, não havendo filosofar separado do viver concreto, dando-se ênfase à praxis filosófica. Destaca se, pois, o pensar como experimentar, a capacidade de raciocinar em termos de operações formais como labor, construção. O propósito do trabalho de investigação em aula não se prende, neste sentido, com a descoberta inventariada de determinados conceitos, mas primordialmente, com a aquisição do domínio de determinados procedimentos de pensamento e atitudes que tornam possível a sua utilização. O laboratório de conceitos significa que a actividade filosófica actua através de conceitos (revendo conceptualizações, "manuseando-se" conceitos de distintos modos, aplicando-se vários conceitos a um mesmo problema, criando-se conceitos a partir de diversos problemas), que se constituem como intermediários na compreensão entre o vivido e o abstracto. Se a abstracção for vazia de sentido, ou se as imagens se desenvolverem sem recurso a qualquer conhecimento, o filosofar não "sobrevive". Se não há filosofia que não seja filosofia do conceito, é porque ela, em sentido próprio, é uma apresentação do conceito, é um reexame e uma redefinição do conceito. Por conseguinte, tudo o que se possa dizer da experiência passa, necessariamente, pelos conceitos que usamos para a interpretar e traduzir. Tomando como ponto de partida uma situação concreta, inicia-se um processo de investigação baseada na vivência quotidiana dos alunos, procurando representar a situação por elementos e relações que conduzam a conceitos que vão permitir uma aproximação teórica do problema. O que era imediato e simples passa a ser problematizado, o que leva a uma segunda descoberta, a de que outras visões são possíveis, porém, sempre sujeitas a um outro olhar conceptual. Os diversos conceitos permitem, deste modo, compreender a experiência humana. Tendo em conta que o conhecimento conceptual nunca poderá substituir totalmente o conhecimento concreto e vivido, por exemplo, na prática educativa alcança, contudo, o topo das suas possibilidades quando, num movimento dialéctico, parte do concreto, passa a formulações abstractas e volta novamente ao concreto para verificar as formulações abstractas. O trabalho sobre os conceitos não pode, por conseguinte, cristalizar os conceitos, transformá-los em imperativos "universais" válidos sob quaisquer circunstâncias. Paradoxalmente, cada perspectiva arquitecta uma conceptualização da noção de conceito. Por outro lado, não são dados, como se pré-existissem à própria filosofia, mas são construídos, e esta elaboração é uma parte determinante da actividade filosófica. Não se pode, pois, dissociar um conceito do uso que dele se faz. A semântica conceptual é o conjunto das operações pelas quais o filósofo explicita deliberadamente a significação das expressões que utiliza, percurso que os alunos seguem a partir dos problemas com que se confrontam. Um conceito nunca é um dado prévio a uma "teoria", mesmo quando a terminologia volta a utilizar termos já conhecidos, mas constrói-se no próprio seio da actividade filosófica. Daí que possamos dizer: o conceito em procura, apesar de ser sempre um devir de conceito. O plano do conceito é a representação. Em todas as formas conceptuais uma coisa encontra-se no lugar de outra, representar significa, portanto, ser o outro de um outro que se convoca, num mesmo movimento. Pensa-se com conceitos, de tal modo que não pode haver nenhum conceito que não pense qualquer coisa. Em suma, embora a palavra recorra a estruturas lógicas, como o juízo, o raciocínio, a sua dimensão de acontecimento não a deixa ficar presa na caverna lógica visto que a abre a uma conceptualização sempre renovada de aproximação aos objectos, a uma combinação dinâmica do geral e da particularidade das coisas que tem diante de si, ao jogo ilimitado da expansão da experiência pelo uso das palavras já sabidas, pela invenção de outras novas. A linguagem é irredutível a um mero instrumento que utilizamos, mas implica um vínculo essencial com o pensamento.
Peer review: yes
URI: http://hdl.handle.net/10400.6/1577
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