Utilize este identificador para referenciar este registo: http://hdl.handle.net/10400.6/2229
Título: A cidade como sistema: o papel do arquitecto
Autor: Batista, Celina Rebelo da Silva
Orientador: Domingues, José António Duarte
Palavras-chave: Arquitecto - Cidade - Sociedade
Arquitecto - Cidade - Espaço
Arquitecto - Cidade - Lugar
Arquitecto - Cidade - Urbanismo
Data de Defesa: 2011
Resumo: Pela primeira vez na história, metade da população vive em cidades. O ano de 2008 foi reconhecido pela United Nations Population Division como o ano do milénio urbano. Estudos efectuados por esta mesma organização revelam que o ritmo de urbanização continua a aumentar. Em 2030 a população da terra, agora com 6.6 biliões de habitantes, vai crescer cerca de 1.5 biliões e quase todos viverão em cidades. Posto isto, algumas questões se levantam: qual o impacto desta movimentação no crescimento exponencial não controlado das cidades? De uma forma mais directa: como deve a arquitectura passar a ver esta transformação? O crescimento, e os prós e contra resultantes do mesmo, promovem o avanço da globalização. A mesma globalização que em tempos servia apenas como troca de bens, serviços, cultura, a um nível comercial global, poderá, na actualidade, ter um impacto cada vez mais pessoal. Os avanços na comunicação, a internet, as viagens cada vez mais ao alcance de todos, a migração económica e a disseminação global de todo o tipo de cultura, unem cada vez mais pessoas com identidades diferentes criando sistemas cada vez mais complexos. Como diz Terry Eagleton: "temos vindo a mudar a partir de uma cultura nacional com um conjunto único de regras para um sortimento variado”. Poderá o ser humano adaptar-se ao que o rodeia sem se transformar, sem perder a sua identidade e a base cultural que o criou, estaremos preparados para criar novas culturas. Como diz Lévi-Strauss: "As culturas não desaparecem, elas misturam-se com outras, e dão origem a uma outra cultura”. Partindo do princípio que toda a organização do mundo tem uma base igual, início esta tese com o estudo dos sistemas. O ser humano como ser racional sempre teve a capacidade, desde os primórdios dos tempos, de sobreviver à solidão e de poder debater-se com a mesma, vivendo em sociedade, no entanto, e porque com a evolução do tempo as necessidades, as prioridades e, as mais-valias, o ser solitário passou a odiar a tal denominada “solidão”. É um facto adquirido que o ser necessita da troca de sensações para se afirmar, para se manter, para ser algo, e necessita reciprocamente dos que o rodeiam. Por isso nos juntamos, formamos ruas e depois aldeias, e o processo de crescimento vai-se perpetuando sem que se tenha noção. Esta necessidade de associativismo, nem sempre perceptível, estará presente em todos os momentos da nossa vida, desde aos mais rotineiros aos mais espontâneos. Somos dependentes do padeiro, do carteiro, do electricista, e estes são reciprocamente dependentes de nós. Todo o agrupamento de seres que, de uma forma intencional ou ponderada, formando um grupo interligado como uma malha denomina-se de sistema (Luhmann, 1999). Quase tudo no mundo se comporta como um sistema, os sistemas racionais, como a sociedade, criados pela aglomeração civilizada e natural gerada por vínculos e movimento aleatório de pessoas com os mesmos interesses, credos e culturas comuns, entre outros. Um mesmo indivíduo pode movimentar-se por vários sistemas, tráz informação, cria informação, transforma gostos, transmite gostos, numa troca contínua. Não se geram sistemas sem a definição de um sentido de solidáriedade e identidade em torno de um conjunto de definições, ou sem uma ponderação passada com vista ao futuro. Da mesma forma que não se geram vínculos sem pontos de igualdade e desigualdade sem se fixarem margens de interacção interiores e exteriores, numa conexão dotada de sentido de acções que se referem umas às outras, e que são delimitáveis no confronto com um ambiente. O crescimento dos mesmos sistemas observou-se recentemente, quando milhares de pessoas iniciaram o processo migratório para as cidades com a perspectiva de um padrão de vida mais elevado. O que é que acontece quando a população ultrapassa a resposta das infra-estruturas que compreendem a cidade? O que acontece quando a cidade deixa de responder aos estímulos do sistema? A segunda parte da tese inicia com o capítulo “Da cidade ao ser”, introduz as interacções dos sistemas entre eles e o meio que os rodeia. E a forma como essas interacções actuam em cada um deles, seja o meio seja o objecto. O sistema provoca sempre um efeito-reacção, basta existir quebra num dos elementos para gerar fragmentação nessa estrutura e indirectamente no sistema. Uma observação cuidada dos sistemas na actualidade revela que muitos deles que mantinham uma malha com sucesso, têm vindo a sofrer danos gerados pelo meio exterior ao mesmo, ou gerados por seres existentes no interior do mesmo. Por sua vez, quanto maior é o sistema mais danos estruturais se observam. Como controlar essa fragmentação? O que a gera? O porquê desses danos pode ser explicado por padrões de interacção normal, ou seja, as cidades grande compreendem mais pessoas, mais formas de pensar mais culturas, mais passados diferentes em busca de futuros diferentes. Como responder positivamente a todas as expectativas? Por onde devemos começar a observar esses danos estruturais e a subsequente fragmentação? Através daquilo que os próprios sistemas criam, como as suas edificações? Como diz Aldo Van Eyck, a casa deve ser como uma cidade ou não será uma casa, da mesma forma que uma cidade deve ser como uma grande casa ou não é uma verdadeira cidade. Desta forma nada explícita melhor a existência de um sistema no espaço que um aglomerado habitacional. Desta forma simples de criação de aglomerados, aliada à convergência de pontos de igualdade ou desigualdade entre seres, nascem os povoados, as aldeias, as vilas, as cidades, as metrópoles. E estas são, sem dúvida, o espelho e o espaço de recolha de todos os sistemas. Se há uma ruptura no sistema gerador do espaço, não estaremos a afectar o espaço? E por sua vez, um espaço mal gerado não afectará o sistema? Com o passar do tempo, o Arquitecto afastou-se de algumas doutrinas, alguns decidiram criar arquitectura por arquitectura. Parafraseando Ignasí Sola-Morales, a arquitectura é consubstancial à cidade, está fora de dúvida. Que a cidade seja só uma Arquitectura pode ser uma afirmação muito mais problemática. A hipótese sobre a qual queremos trabalhar é algo mais modesta que o acerto de León Battista Alberti, para quem a cidade não era outra coisa mais que uma grande arquitectura e para quem cada arquitectura podia entender-se como una pequena cidade. Nos nossos dias, toda a problemática da ecologia, do impacto de factores como a insegurança, segundo alguns resulta do crescimento desregulado da cidade, devemos voltar às origens e procurar novas respostas? Neste ponto será pertinente dar o exemplo de um sistema no qual a interacção entre objecto sistema se torna perfeito, o caso das colónias de formigas e o seu formigueiro capazes de criar uma sociedade, construir as suas cidades, e manter a sua malha ou estrutura que a denomina como sistema coeso ao longo do seu período de duração. Daqui sobressalta outra questão, porque é que seres irracionais vivem em harmonia com o todo e a nossa sociedade não? Em que ponto é que elas são bem-sucedidas criando espaços generalistas com respostas que actuam individualmente e a nível geral se superam e se mantêm, e o ser humano não? Compreender o impacto da ideia dos sistemas na cidade e da cidade nos sistemas torna-se uma tarefa necessária e importante. Como dizia Lewis Tomas, “a cidade é a maior concentração possível de seres humanos, na qual todos exercem tanta influência na mesma como a influência que são capazes de suportar”. Por isso, talvez se deva estudar os sistemas que nascem a uma velocidade vertiginosa à frente dos nossos olhos, a associação interespecífica que compreende a relação cidade – sistema, e o papel do arquitecto como planeador de espaços, responsável por dar uma resposta cada vez mais rápida para a resolução de problemas urbanísticos. Como pode um arquitecto passar a criar espaços para mais e diferentes pessoas, responder a diferentes gostos? Seguindo a linha de raciocínio de Aldo Van Eyck, talvez a resposta ao problema esteja na nossa “casa”, espaço infinito, mas íntimo que reflecte um pouco de cada um de nós, as nossas vivências, a nossa educação, a nossa cultura. E tal como diferentes culturas geram diferentes sistemas directamente, diferentes “casas” formam uma cidade. Esta funciona segundo uma associação interespecífica com o sistema. Qualquer acontecimento adjacente a um dos ramos implica danos no ramo contrário. Uma fragmentação no sistema produz uma fragmentação na cidade, um crescimento no sistema produz crescimento na cidade, uma mudança na cidade produz uma mudança no sistema. Desta forma, o Arquitecto vai ter um papel importante não só na forma como actua na criação de espaços, mas indirectamente, na criação, na união, e perpetuação de um sistema. A questão focal aqui será então a seguinte: qual o impacto do Arquitecto e o seu peso na sociedade? E a constatação do facto que a arte de projectar não assenta na actualidade apenas em si mesma, mas na união de diferentes ciências, como um sistema.
URI: http://hdl.handle.net/10400.6/2229
Designação: Dissertação apresentada à Universidade da Beira Interior para a obtenção do grau de mestre em Arquitectura
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