Percorrer por autor "Riscado, Bruna Seixas"
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- Enquadramento mediático da Crise do Sudão do Sul uma análise comparativa de conteúdo do New York Times, The Guardian e Al Jazeera (2011-2024)Publication . Riscado, Bruna Seixas; Sousa, Ricardo Real Pedrosa deO presente estudo analisa o enquadramento mediático da crise no Sudão do Sul entre 2011 e 2024, a partir de uma perspetiva comparativa da cobertura jornalística internacional nos jornais The New York Times, The Guardian e Al Jazeera. O objetivo central consiste em compreender como estas três publicações de referência retratam o conflito e de que forma a construção narrativa contribui para a perceção global desta crise humanitária prolongada. A escolha do Sudão do Sul como objeto de estudo justifica-se pela sua relevância geopolítica e pelo contraste entre a gravidade da situação humanitária e a escassa atenção mediática que recebe. Desde a independência em 2011, o Sudão do Sul enfrenta uma guerra civil marcada por violência étnica, deslocamentos em massa, insegurança alimentar e violações sistemáticas dos direitos humanos (ACNUR, 2024; FAO, 2023). Apesar de o país representar uma das emergências humanitárias mais graves da atualidade, a cobertura mediática internacional tem sido irregular e desproporcional quando comparada a outras crises de maior visibilidade (Mamdani, 2009). Esta desigualdade informativa confirma a tese de Philo (2013), que identifica uma hierarquização estrutural das crises nos meios de comunicação internacionais, onde determinados conflitos são amplamente mediatizados enquanto outros permanecem na periferia da atenção global. A investigação utiliza o método de análise de conteúdo qualitativo (Bufrem, 2018), aplicado a um conjunto de artigos publicados entre 2011 e 2024 nos três jornais selecionados. Através da análise de padrões narrativos, categorias temáticas e frequências de enquadramento, foram identificados três eixos principais: o enquadramento humanitário, o enquadramento securitário e o enquadramento político-diplomático (Entman, 2004). O primeiro domina amplamente o discurso mediático, centrando-se na vitimização civil, na fome e na desagregação social. O segundo surge associado ao risco de desestabilização regional e à ameaça que a crise representa para a segurança internacional (Livingston, 1997). Já o enquadramento político-diplomático, embora presente, aparece de forma intermitente e subordinada às narrativas anteriores (Thussu, 2003). Os resultados indicam que o The New York Times tende a privilegiar uma narrativa de carácter humanitário e dramatizado, destacando massacres, deslocamentos e sofrimento humano, mas sem continuidade ao longo do tempo (Kulish, 2013; Dahir, 2023). O The Guardian adota uma abordagem visualmente expressiva, reforçando o impacto emocional das imagens de fome e deslocamento, enquanto a Al Jazeera tende a integrar perspetivas regionais e políticas mais amplas, contextualizando o conflito nas dinâmicas pós-coloniais africanas e nas tensões geopolíticas globais. Apesar destas diferenças, observa-se um padrão comum de representação do Sudão do Sul como um “Estado frágil”, carente de agência e dependente da intervenção internacional uma leitura que ecoa as críticas de Mamdani (2009) e Jok (2011) à narrativa ocidental sobre África. Complementarmente, as noções de CNN Effect (Gilboa, 2005; Livingston, 1997) ajudam a compreender como a visibilidade mediática pode influenciar a agenda internacional e pressionar a intervenção de governos e organizações. Contudo, a análise confirma que a atenção mediática segue um padrão cíclico de dramatização episódica e subsequente esquecimento, o que reduz a eficácia desse potencial transformador. A ausência de vozes locais e a dependência de fontes internacionais constituem uma das principais limitações da cobertura. A comunicação social raramente incorpora testemunhos diretos de atores sul-sudaneses, perpetuando uma visão externalizada e paternalista da crise. Além disso, o foco reiterado em imagens de sofrimento e dependência reforça estereótipos sobre o continente africano, obscurecendo iniciativas de resiliência e reconstrução interna (Johnson, 2016). Esta tendência levanta questões éticas sobre o papel da comunicação social na produção de conhecimento e na representação das relações Norte-Sul. Em termos académicos, esta dissertação contribui para o campo das Relações Internacionais ao integrar a análise mediática numa leitura crítica das dinâmicas humanitárias e políticas globais. No plano prático, os resultados alertam jornalistas, decisores e organizações internacionais para a importância de promover uma cobertura mais equilibrada, contextualizada e inclusiva (Philo, 2013). A media internacional, ao atuar como mediadora entre o conflito e o público global, tem a responsabilidade de não apenas informar, mas também de educar e mobilizar para uma resposta mais ética e eficaz às crises humanitárias contemporâneas. Em síntese, o estudo conclui que o enquadramento mediático da crise no Sudão do Sul é marcado pela predominância das narrativas humanitária e securitária, pela invisibilidade das perspetivas locais e pela cobertura intermitente que reforça a perceção do país como um espaço de vulnerabilidade permanente. A reflexão final sublinha, assim, a urgência de repensar as práticas de representação mediática para que contribuam efetivamente para uma justiça informativa e para a construção de uma compreensão mais profunda e equilibrada dos conflitos africanos.
