Percorrer por autor "Ribeiro, Mariline Ranginha"
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- Caracterização das lesões auto-infligidas não letais no âmbito das perícias médico-legaisPublication . Ribeiro, Mariline Ranginha; Vieira, Duarte NunoAs lesões auto-infligidas não letais incluem todos os comportamentos nos quais um indivíduo, directa e deliberadamente, causa dano a si próprio, sem a intenção de cometer suicídio. Estas lesões parecem surgir em cerca de quatro por cento da população adulta, sendo que, as que pretendem simular crimes, são mais frequentes em jovens entre a segunda e a terceira década de vida, solteiros e desempregados. Para se realizar o diagnóstico destas lesões é fundamental realizar uma entrevista clínica estruturada e pormenorizada e um exame físico sistemático, procedendo ao registo de todas as informações recolhidas directa ou indirectamente, bem como à descrição das lesões e ao seu registo fotográfico sempre que possível. Existem vários mecanismos pelos quais se podem cometer “auto-lesões”, sendo o mais frequente a incisão de cortes superficiais e suaves na pele, sendo para isso utilizados materiais cortantes, como sejam, facas, agulhas, giletes ou as próprias unhas. Outros mecanismos são contusões, queimaduras (por ponta de cigarro, por exemplo), cortes profundos, fracturas ou amputações. Habitualmente, os cortes são superficiais, lineares, uniformes, agrupados e paralelos, acompanhando a curvatura da superfície corporal e mantendo a mesma profundidade em todo o seu comprimento, podendo, obviamente, adquirir outros padrões menos comuns. Todos os tipos de lesões tendem a apresentar-se de forma simétrica ou com predominância do lado não-dominante, em zonas controláveis com a visão do próprio e alcançáveis pelas próprias mãos, poupando áreas corporais mais sensíveis. Tipicamente as roupas não são afectadas ou, se são, os danos nas roupas não são consistentes com o dano corporal. A ausência de lesões de defesa também ajuda a confirmar o diagnóstico de lesões auto-infligidas, assim como o padrão linear e pouco destrutivo das lesões, na maioria dos casos, incongruente com a descrição dramática da agressão contada pela “vítima”. Os objectivos para a realização destes actos podem ser divididos em três grandes grupos: simulação de ofensas criminais para acusação de alguém, fraudes a companhias de seguro com perspectivas de lucro económico, e simulações entre soldados e prisioneiros para obtenção de algum tipo de benefício pessoal. Muitas vezes, as lesões são realizadas para dar mais credibilidade à simulação de assalto ou rapto, podendo ser ou não de carácter sexual. Com alguma frequência, está por trás uma história de separação dramática, a dissimulação de traições amorosas, a vingança de alguém especificamente, a obtenção de compaixão por terceiros, entre muitos outros motivos. No que toca a fraudes a seguradoras, geralmente o objectivo é simular um acidente do qual resultou a amputação de uma parte distal do corpo, como um ou vários dedos da mão não-dominante, sendo típica a existência de uma ou várias apólices contratadas recentemente que tornam aquele acidente bastante vantajoso para a suposta vítima. Nos prisioneiros e soldados, estes comportamentos têm como fim obter vantagens dentro das instituições onde estes se encontram, resultando numa situação mais confortável para o indivíduo em questão. Para melhor compreender estes comportamentos auto-agressivos, apresentam-se dois casos a título de exemplo: o primeiro, relativo a senhora que simulou agressão sexual por parte de um colega de trabalho com lesões cortantes superficiais; e, o segundo, envolvendo empregado de farmácia que simulou acidente com machado, implicando corte de quatro dedos da mão esquerda, para receber prémios de seguros.
