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Christian Symbology in Vogue Portugal and the Influence of Religiosity on 21st Century Women's Fashion

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Resumo(s)

Religion has been known to constrain its members' desires and thoughts, as well as to control their physical bodies through clothing (Arthur, 1999; 2000), creating rules and inscriptions of particular significance to female bodies that not only carry social meanings but can also be used as evidence of how a specific individual is (or not) on the “right and true path”. The fact that Portugal was born as a Catholic country remained culturally relevant throughout its history, evident in the prevalence of Catholic references, the lack of religious diversity and the difficulty, until the second half of the 20th century, of separating Church and State. Addressing areas such as the theory, sociology, and theology of clothing, alongside gender studies and consumer behaviour, this thesis explores how religious beliefs and cultural practices influence contemporary Portuguese women's fashion choices and how Christian symbolism is represented in 21st-century media culture, with a specific focus on Vogue Portugal. Employing a mixed-methods approach, the research combines the following: a detailed analysis of 241 Vogue Portugal issues published between 2002 and 2024, an online survey of 469 Christian women in Portugal, as well as in-depth interviews with 33 Christian women from various denominations, and four experts in the fields of fashion and religion. Findings reveal a significant and increasing presence of Christian references in the magazine, often appropriated for aesthetic or critical purposes, rather than strictly religious ones, which might reflect a secularisation trend while still acknowledging Catholicism's enduring cultural impact in the country’s visual culture. The study also demonstrates that, while fundamentalist interpretations of modesty in dress are not widely adhered to among Portuguese Christian women, religiosity significantly influences these women’s fashion choices, particularly concerning modesty and their perception of the appropriateness of the use of religious symbols in fashion design. This thesis contributes significantly to the underexplored intersection of fashion and religion in Portugal, highlighting the dynamic interplay between cultural heritage, media representation and individual expressions of faith.
Tendo em conta o contexto histórico português, no qual se consolidaram ideais de modéstia feminina associados a um catolicismo antiliberal, a presente tese investiga se, e de que forma, esses valores continuam a manifestar-se no modo de vestir de mulheres cristãs na atualidade, cinquenta anos após o fim da ditadura, entendida como enquadramento do contexto sociocultural português. Assim, a investigação parte do pressuposto de que o vestuário não é apenas uma escolha prática ou estética, mas um símbolo cultural que molda e expressa identidades, tradições e formas de estar no mundo por parte de quem segue uma determinada fé. Embora considere a influência prolongada da moral judaico-cristã e da respeitabilidade vitoriana na moda ocidental (Craik, 1994), a revisão da literatura foca-se sobretudo na tensão entre o vestuário religioso como expressão espiritual e a sua apropriação pela indústria da moda. A modéstia é, aqui, entendida não como um valor fixo, mas como uma noção socialmente construída que oscila entre ocultação e exposição, podendo funcionar tanto como crítica à moda hipersexualizada quanto como continuação de tradições religiosas. Este estudo examina a persistência da modéstia e a reinterpretação de símbolos cristãos na moda e nos media seculares, sendo que a questão central da investigação consiste em perceber como o cristianismo influencia a cultura da moda e a forma como as mulheres cristãs se vestem em Portugal. Assim, a tese contribui para as discussões académicas sobre a relação entre moda e religião, analisando de que forma a influência cristã se manifesta na maneira de vestir de mulheres portuguesas (ou residentes em Portugal), e como o cristianismo é representado nas páginas da Vogue Portugal, utilizada como caso de estudo – partindo da abordagem de Neal (2019), que centrou o seu estudo na Vogue dos Estados Unidos da América, inspirou parte da metodologia desta investigação, e defende que as revistas de moda, enquanto fontes primárias, revelam os valores, ideais e propostas estéticas que a indústria da moda deseja transmitir ao seu público. Os objetivos específicos da investigação incluem os seguintes elementos: identificar diferenças entre denominações, analisar perceções do conceito de modéstia no contexto português, observar indícios de influência religiosa na moda e comparar o caso português com outras realidades internacionais. O enquadramento teórico assenta em estudos sobre moda e modéstia nas tradições abraâmicas, recorrendo ao trabalho de autoras como Lynne Hume (2013) e Linda B. Arthur (1999; 2000), que exploram o modo como a roupa expressa identidade e crença religiosa. A modéstia cristã é, também, abordada através de textos de líderes religiosos, teólogos (Ambrosio, 2020, 2022; Covolo, 2020), passagens bíblicas (como 1 Timóteo 2:9-10) e contributos históricos e sociológicos sobre o modo de vestir dos cristãos (Morgan, 2025; Michelman, 1998; Dwyer-McNulty, 2014; Entwistle, 2000). A metodologia adotada segue um paradigma interpretativista com recurso a métodos mistos, articulando componentes qualitativas e quantitativas. Foram recolhidos dados através dos seguintes métodos: entrevistas a quatro especialistas nas áreas da religião, sociologia e/ou moda; da análise de conteúdo de 241 edições da Vogue Portugal publicadas entre 2002 e 2024, de modo a identificar e analisar referências cristãs; e de um inquérito online realizado a 469 mulheres residentes em Portugal e que se identificam como cristãs. Além disso, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com 33 mulheres cristãs, pertencentes a diferentes denominações e graus de religiosidade, com o objetivo de compreender de forma aprofundada as suas experiências e visões sobre a relação entre fé e a roupa. Assim, o foco recai sobre a moda enquanto prática quotidiana de vestir, e não necessariamente sobre a indústria da moda. A opção de centrar parte da investigação nas escolhas de vestuário das mulheres decorre do facto de estas, historicamente, terem sido alvo de maior escrutínio e restrição através de normas de género perpetuadas pela Igreja, que frequentemente atribuiu um papel central à aparência feminina, regulando-a através de códigos de modéstia que, na maior parte das vezes, não têm equivalência direta para os homens. A análise de conteúdo revelou que 171 das 241 edições da Vogue Portugal incluíam referências cristãs, com um crescimento assinalável a partir de 2018. Os elementos visuais mais frequentes foram cruzes, pinturas sacras e cenários como igrejas, acompanhados de inúmeras referências textuais a temas como o Éden ou o Pecado Original. Estas referências surgiram ao longo de todo o ano e não se limitaram às edições associadas a feriados religiosos (como a Páscoa e o Natal), ao contrário do que fora observado por Neal (2019). No inquérito, a maioria das participantes identificou-se como católica (66,7%), seguida por evangélicas e outras denominações protestantes (19,8%). A maioria (60%) não considerou que o vestuário cristão deva excluir necessariamente roupas reveladoras, embora as participantes mais religiosas e mais jovens expressassem opiniões mais conservadoras (49,8% das mulheres entre os 18 e os 29 anos concordaram com evitar roupas reveladoras). Verificou-se, ainda, uma rejeição generalizada da ideia de que a modéstia deva estender-se à presença nas redes sociais, ainda que, mais uma vez, as participantes mais jovens tenham demonstrado maior abertura para esta possibilidade. Contrariamente ao que se previa, não foi encontrada uma correlação forte entre modéstia e variáveis como contexto urbano ou nível de escolaridade, possivelmente devido a uma falta de diversidade neste sentido dentro da amostra. Adicionalmente, as opiniões dividiram-se quanto à presença de símbolos religiosos na moda, existindo quem os valorizasse como expressão artística significativa e quem os considerasse desadequados ou desrespeitosos. Nas entrevistas, várias mulheres afirmaram considerar o modo de vestir uma expressão da sua fé, e referiram o corpo como um “templo” (em referência a 1 Coríntios 6:19-20). Algumas entrevistadas partilharam experiências passadas de pressão para se vestirem de forma mais modesta, mas descreveram as diretrizes atuais como não repressivas. Em geral, as interpretações da modéstia variaram entre leituras literais das escrituras e compreensões mais simbólicas. Mencionaram-se, no entanto, conceitos como a responsabilização feminina por pensamentos e ações masculinas, relacionadas com o vestuário revelador por parte das mulheres, bem como modéstia religiosa associada a simplicidade, ética e caridade. O uso de símbolos cristãos foi frequentemente associado a intenções conscientes, sendo criticada a sua apropriação superficial ou desrespeitosa (com casos como os de Madonna ou Lil Nas X sendo referidos pelas participantes). Ainda assim, quando utilizados com ponderação e respeito, os símbolos foram geralmente aceites. Relativamente às entrevistas com especialistas, Anna-Mari Almila observou que a utilização ou apropriação de iconografia cristã no design de moda integra uma tendência mais ampla de estetização da religião em si, e Lynn S. Neal alertou para a possibilidade de diluição simbólica quando estes elementos são comercializados, mas que, a inclusão destes elementos pela indústria significa que ainda são relevantes e que existe um público para os mesmos, caso contrário, as marcas deixariam de fazer estas alusões. Por outro lado, Robert Covolo sugeriu que as diretrizes bíblicas sobre o vestir se centram mais na construção de identidade do que na modéstia em si, enquanto que Marina Seibert Cezar destacou que a modéstia é, acima de tudo, “uma maneira da sua portadora conseguir reportar um dos seus valores morais mais marcantes”, ao se apresentar perante os seus pares e a sociedade em geral. Posteriormente, a discussão contrapõe a iconofilia católica à iconoclastia protestante e aponta marcas como Dolce & Gabbana e Versace como recorrentes na exploração de referências católicas, o que pode gerar controvérsia quando o sentido espiritual ou as motivações dessas escolhas não são evidentes. Em Portugal, designers como Nuno Gama e marcas como a BÉHEN têm, também, recuperado elementos de práticas católicas (como terços e procissões), ligando à identidade religiosa nacional. No meio cristão, são frequentes produtos como as pulseiras “The Four” (mencionadas nas entrevistas por jovens evangélicas) e foi identificada a marca católica “Valha-me Deus”, sugerindo o surgimento de marcas religiosas que, além de incluírem símbolos e frases alusivas à religião, são comercializadas por praticantes da religião e têm como público-alvo outros membros da sua fé. Em conclusão, o Cristianismo continua a influenciar a cultura da moda em Portugal, visto que, não só a Vogue Portugal tem incluído cada vez mais referências cristãs nas suas páginas, mas também, para muitas mulheres, o ato de vestir mantém-se como uma expressão pessoal e comunitária de fé, sendo a modéstia percebida como um valor dinâmico e sensível ao contexto. Embora o uso de símbolos religiosos na moda possa gerar polémica, sobretudo quando desprovido de significado, nota-se a existência de um interesse por propostas que reflitam valores e crenças cristãs, tanto em Portugal como noutros contextos. Por fim, as limitações deste estudo incluem a ausência de entrevistas com editores da Vogue Portugal e a falta de perspetivas de grupos como a comunidade cigana e emigrantes de outras regiões da América Latina ou África (visto que as participantes brasileiras mostraram uma maior pressão para aderir a conceitos de modéstia cristã em igrejas predominantemente brasileiras), bem como de freiras, cristãs ortodoxas e membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Além de colmatar as limitações do presente estudo, pesquisas futuras poderão, entre outras oportunidades, aprofundar o papel editorial da Vogue Portugal, comparar o uso internacional de símbolos cristãos noutros países (ou mesmo de símbolos de outras religiões, como o Islão) ou ainda explorar o contributo de influencers religiosos na forma como as mulheres cristãs se vestem e comunicam a sua fé através da moda.

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Teologia da Moda Religião Simbologia Cristã Imaginário Católico Modéstia Vogue Portugal Fashion Theology Religion Christian Symbology Catholic Imagery Modesty

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