Percorrer por autor "Miranda, Jacqueline de Sousa"
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- Entre o Sertão e o Clássico: Traços do herói homérico na obra de Guimarães RosaPublication . Miranda, Jacqueline de Sousa; Manso, José Henrique RodriguesEsta dissertação propõe uma investigação sobre a construção da masculinidade heroica na obra de João Guimarães Rosa (1908-1967), com foco na recriação simbólica de arquétipos clássicos, especialmente os da epopeia grega. A partir da análise de personagens masculinos como Riobaldo, Diadorim, Hermógenes e Zé Bebelo, presentes em Grande Sertão: Veredas (1956), Sagarana (1946) e Primeiras Estórias (1962), busca-se compreender de que modo Rosa reelabora, a partir do sertão brasileiro, figuras heroicas que dialogam com modelos como Aquiles, Ulisses, Agamémnon, Ájax e Pátroclo. Longe de constituírem tipos locais ou apenas representações históricas do jagunço, estes personagens são tratados como figuras simbólicas, existenciais e trágicas, cujas trajetórias ecoam as grandes estruturas do mito. A fundamentação teórica da pesquisa parte de uma abordagem comparativista e interdisciplinar, que articula literatura brasileira, mitologia clássica, psicanálise arquetípica e estudos de género. O conceito de arquétipo, desenvolvido por Carl Gustav Jung (1875-1961), é fundamental para a leitura simbólica dos personagens, bem como as reflexões de Joseph Campbell (1904-1987) sobre a jornada do herói e de Mircea Eliade sobre a função do mito no imaginário coletivo. Além disso, a leitura direta dos cadernos de estudo de Guimarães Rosa, especialmente aquele intitulado Dante (1265-1321), Homero, La Fontaine, e os registos do Diário em Paris, evidenciam o contacto consciente do autor com a epopeia de Homero, cujas traduções e reflexões o acompanharam no processo de criação das suas principais obras. A dissertação está organizada em quatro capítulos principais. O primeiro traça o percurso teórico dos conceitos de herói, arquétipo, jornada e tragédia, com base em autores como Aristóteles, Jung, Campbell, Butler e Vernant. O segundo capítulo examina a masculinidade nas obras rosianas, entendendo o jagunço como uma figura que articula força, sensibilidade, honra e silêncio. O terceiro capítulo opera uma leitura comparada entre os personagens de Rosa e os heróis da Ilíada e da Odisseia, destacando as ressonâncias entre a travessia de Riobaldo e a errância de Ulisses, o sacrifício de Diadorim e o pathos trágico de Aquiles, entre outros paralelos simbólicos. O quarto capítulo aprofunda o aspeto simbólico e psicanalítico da masculinidade rosiana, mostrando de que modo o herói sertanejo opera uma síntese cultural entre o épico clássico e a ética moderna. Conclui-se que Guimarães Rosa constrói, por meio da linguagem e da ambiguidade narrativa, um “universo sertanejo” que ressignifica os modelos heroicos da Antiguidade, transformando o sertão em palco de questões universais sobre destino, honra, amor, dúvida e sacrifício. A dissertação oferece, assim, uma contribuição para os estudos literários ao demonstrar como a literatura rosiana ultrapassa o regionalismo, incorporando e reinventando os mitos fundadores da cultura ocidental.
