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- A Ansiedade na Era Digital: A Transformação da Angústia à Luz de Jean-Paul SartrePublication . Oliveira, Thaís de Sá; Nascimento, André Barata; Castro, Fernando José Gastal deA era digital instaurou um novo regime de presença e ação, no qual a liberdade humana se exerce sob mediações técnicas e algorítmicas que antecipam, modulam e quantificam cada ato. Nesse contexto, o problema filosófico que orienta esta investigação consiste em compreender como a experiência originária da angústia – pela qual o ser humano se descobre condenado à liberdade – foi historicamente transfigurada em ansiedade digital, uma forma difusa de alienação e sofrimento que caracteriza a subjetividade contemporânea. Trata-se de interrogar o modo de ser do para-si em um mundo em que as mediações técnicas precedem e orientam a transcendência, convertendo a liberdade em cálculo e a escolha em probabilidade. O objeto da tese é examinar a relação entre liberdade, angústia e ansiedade no pensamento de Jean-Paul Sartre, em diálogo com o contexto técnico e cultural da era digital. A análise concentra-se nas obras de Sartre produzidas entre 1936 e 1960 – da psicologia fenomenológica à Crítica da Razão Dialética – período em que se estruturam as categorias centrais de sua fenomenologia existencial: intencionalidade, emoção, imaginação, liberdade, má-fé, temporalidade e o prático-inerte. Essas categorias são reinterpretadas à luz das mediações digitais contemporâneas, trazendo a filosofia de Sartre ao diálogo com teóricos da cibercultura e da sociologia do tempo, como Pierre Lévy, Manuel Castells, Jean Baudrillard, Sherry Turkle, Marc Augé, Hartmut Rosa, Byung-Chul Han, e André Barata. A hipótese central sustenta que a ansiedade digital constitui um desdobramento histórico e ontológico da má-fé – entendida como a tentativa da consciência de escapar à angústia inerente à liberdade. Argumenta-se que a ansiedade emerge como conduta psicofísica pela qual o ser humano busca atenuar o confronto com o nada que o fundamenta, ao mesmo tempo em que interioriza as coerções de um mundo tecnicamente mediado. Assim, a liberdade acaba por se traduzir em heteronomia técnica, reproduzida pelas estruturas do prático-inerte algorítmico. A pesquisa adota uma abordagem tripla: fenomenológica, para descrever a ansiedade digital como experiência intencional da consciência, evitando reduzi-la à patologia; hermenêutica, para reinterpretar as categorias centrais de Sartre no contexto contemporâneo da tecnologia e das redes digitais; e crítico-interdisciplinar, para dialogar com as teorias da aceleração, da atomização e da precariedade temporal, integrando-as à ontologia fenomenológica da liberdade. A trajetória argumentativa se desenvolve ao longo de seis capítulos interligados. O primeiro reconstrói a psicologia fenomenológica do jovem Sartre, examinando a intencionalidade, a emoção, a imaginação e a categoria do mágico como fundamentos ontológicos da liberdade. O segundo analisa a ontologia fenomenológica de O Ser e o Nada: Ensaio de Ontologia Fenomenológica, abordando liberdade, angústia, má-fé e intersubjetividade. O terceiro desenvolve a dialética entre liberdade e alienação por meio do método progressivo-regressivo e das mediações do prático-inerte. O quarto transpõe essa dialética para o contexto digital, interpretando o ciberespaço como manifestação contemporânea do prático-inerte e analisando seu papel na estruturação da experiência. O quinto investiga a crise da temporalidade na modernidade tardia, articulando a noção sartriana de ek-stasis com as teorias da aceleração, da atomização e da precariedade. Por fim, o sexto propõe uma interpretação fenomenológica da ansiedade digital como experiência psicofísica diante da angústia existencial, examinando manifestações paradigmáticas – como avatares, ghosting, doomscrolling e FOMO – e suas implicações ético-políticas. A tese demonstra que a ansiedade digital não é um sintoma clínico, mas um desdobramento histórico da má-fé, na qual a liberdade se oculta sob as mediações técnicas do algoritmo. Ao integrar a ontologia fenomenológica de Sartre às estruturas da cibercultura, o trabalho oferece uma interpretação original da subjetividade contemporânea como experiência de liberdade alienada – em que o sujeito busca escapar da indeterminação refugiando-se nas garantias do código. Sua principal contribuição consiste em oferecer a primeira sistematização filosófica da ansiedade digital como atualização histórica da fuga da angústia existencial pela má-fé, reposicionando a ontologia sartriana no centro dos debates contemporâneos sobre tecnologia, temporalidade e sofrimento na era digital.
